A juba de leão (Hericium erinaceus) deixou de ser tema exclusivo de pesquisas sobre cognição humana. Nos últimos anos, grupos de pesquisa em medicina veterinária e ciência animal passaram a investigar o mesmo cogumelo em cães — olhando para comportamento, microbiota intestinal e marcadores metabólicos em animais idosos.
Em 2025, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Istambul-Cerrahpaşa publicaram um estudo que avaliou extrato de Hericium erinaceus em cães com sinais clínicos de ansiedade, combinando eletroencefalograma (EEG), análise neuroquímica de sangue e questionários comportamentais validados. Esse não é um caso isolado: outros grupos, principalmente ligados à ciência animal sul-coreana, vêm publicando estudos com cães idosos avaliando microbiota intestinal e marcadores de saúde geral.
Este artigo reúne o que a literatura científica documenta até o momento sobre Hericium erinaceus em cães e em outros modelos animais — sempre com atribuição aos pesquisadores responsáveis, sem extrapolações e sem prometer resultados. Saúde animal, assim como saúde humana, é um campo que merece leitura cuidadosa da evidência disponível.
Por que pesquisadores passaram a olhar para cães e outros pets
A racionalidade por trás desses estudos não é nova. Os mecanismos biológicos investigados em pesquisas com humanos — como a síntese do fator de crescimento nervoso (NGF) e a modulação da microbiota intestinal por beta-glucanas — não são exclusivos de uma espécie. Friedman (2015), em revisão publicada no Journal of Agricultural and Food Chemistry, já havia mapeado esses mecanismos em modelos celulares e em animais antes mesmo dos primeiros ensaios clínicos com humanos ganharem destaque.
Cães de companhia, em particular, vivem cada vez mais e desenvolvem, com o avanço da idade, quadros de declínio comportamental e cognitivo que a literatura veterinária descreve como disfunção cognitiva canina — um quadro com paralelos descritos na pesquisa em relação a processos neurodegenerativos estudados em humanos. Esse paralelo despertou o interesse de grupos de pesquisa em observar, em cães reais, compostos que já vinham sendo estudados em culturas celulares e em modelos murinos.
Ao mesmo tempo, o mercado de alimentos funcionais para pets cresceu nos últimos anos — o que levou pesquisadores ligados à indústria de ração e nutrição animal a investigar formalmente ingredientes como Hericium erinaceus incorporados à dieta de cães, em vez de depender apenas de relatos informais de tutores.
O que a ciência documenta em cães
Atualmente, três linhas de pesquisa com cães aparecem na literatura: comportamento e ansiedade, microbiota intestinal em animais idosos, e marcadores metabólicos de saúde geral. Cada uma utilizou metodologia, dose e duração próprias — detalhes que importam para interpretar os resultados com cuidado.
Comportamento e ansiedade: o estudo de Cevik et al. (2025)
Pesquisadores da Universidade de Istambul-Cerrahpaşa conduziram um estudo, aprovado pelo comitê de ética da instituição (protocolo 2021/36), com cães de raças mistas que apresentavam sinais clinicamente relevantes de ansiedade. Os animais foram divididos em dois grupos: um recebeu extrato de Hericium erinaceus e outro recebeu extrato de Valeriana officinalis, ambos na dose de 1.000 mg por 10 kg de peso corporal ao dia, durante quatro semanas.
A avaliação combinou três frentes: eletroencefalografia das regiões frontal, temporal e central — analisando as bandas delta, teta, alfa e beta —, análise neuroquímica de serotonina, dopamina e cortisol, e questionários comportamentais padronizados. Os pesquisadores documentaram reduções significativas em sinais comportamentais específicos associados à ansiedade em ambos os grupos após o período de quatro semanas. (DOI: 10.1016/j.jveb.2025.04.010)
Vale notar que esse desenho comparou dois extratos entre si, sem um grupo placebo isolado — uma limitação que a própria literatura reconhece como relevante para distinguir o efeito específico de cada composto de outros fatores, como rotina e ambiente do animal durante o período de observação.
Microbiota intestinal em cães idosos: o estudo de Cho et al. (2022)
Um grupo de pesquisadores ligados à ciência animal sul-coreana avaliou, em estudo publicado no Journal of Animal Science and Technology, o efeito da suplementação com Hericium erinaceus sobre a microbiota intestinal de 18 cães com 11 anos de idade, divididos em três grupos de seis animais: um grupo controle sem suplementação, um grupo recebendo 0,4 g de Hericium erinaceus por kg de peso corporal ao dia, e um grupo recebendo 0,8 g por kg ao dia, durante 16 semanas.
Por meio de sequenciamento metagenômico, os pesquisadores observaram, no grupo de dose mais alta, aumento da proporção do filo Bacteroidetes e da ordem Bacteroidales, além de redução do filo Firmicutes e dos gêneros Streptococcus e Tyzzerella em comparação ao grupo controle. Os autores descreveram essas alterações como potencialmente relacionadas à imunidade e ao metabolismo de gordura corporal em cães, classificando os achados como um indicativo inicial que demanda confirmação em estudos adicionais com amostras maiores. (DOI: 10.5187/jast.2022.e66)
Marcadores metabólicos em cães idosos: Chun et al. (2022)
O mesmo grupo de pesquisa apresentou, em resumo de conferência publicado no Journal of Animal Science, dados complementares do mesmo experimento, organizados em quatro grupos: cães adultos de 5 anos sem suplementação, cães idosos de 11 anos sem suplementação, e dois grupos de cães idosos recebendo as doses de 0,4 g/kg e 0,8 g/kg descritas no estudo anterior, também por 16 semanas.
Os pesquisadores utilizaram ressonância magnética nuclear (RMN) para analisar o perfil metabólico do soro sanguíneo, além de hemogramas, exames bioquímicos, escore de condição corporal e testes de preferência alimentar. Após 8 semanas, os grupos suplementados apresentaram concentrações significativamente mais elevadas de formato, ascorbato (vitamina C), acetona e colina — diferenças que persistiram até a 16ª semana no grupo de dose mais alta. Os autores associaram esses marcadores a processos de proliferação celular, formação de membranas lipídicas e atividade antioxidante em cães idosos, e relataram hemogramas e exames bioquímicos dentro da normalidade em todos os grupos ao longo das 16 semanas. (DOI: 10.1093/jas/skac247.496)
O que a pesquisa em outros animais ajuda a entender
Além dos estudos com cães, modelos de roedores continuam sendo a base da pesquisa sobre os mecanismos do Hericium erinaceus — e ajudam a explicar por que pesquisadores avançaram para estudos com animais de companhia.
Memória e neurogênese em camundongos envelhecidos: Ratto et al. (2019)
Ratto et al. (2019), em estudo publicado no periódico Nutrients, acompanharam 15 camundongos machos da linhagem C57BL-6J dos 11 aos 23,5 meses de idade — um intervalo que, no modelo murino, corresponde ao envelhecimento e ao surgimento de fragilidade. Sete animais classificados como frágeis receberam, por dois meses, suplementação oral com extrato de Hericium erinaceus padronizado em erinacina A e hericenonas C e D.
Os pesquisadores avaliaram a memória de reconhecimento por meio do teste de reconhecimento de objeto novo e analisaram tecido cerebral com os marcadores PCNA e DCX, associados à proliferação celular e à neurogênese. Os animais suplementados apresentaram reversão do declínio de memória de reconhecimento relacionado à idade observado no grupo controle, além de maior proliferação celular no hipocampo (22,89% contra 10,80% no grupo controle) e no cerebelo (25,60% contra 8,19%). (DOI: 10.3390/nu11040715)
Saúde intestinal em modelos de roedores: Diling et al. (2017)
Diling et al. (2017), em estudo publicado na revista Oncotarget, testaram três tipos de extrato de Hericium erinaceus — polissacarídeo, alcoólico e extrato integral — em modelo de doença inflamatória intestinal induzida em ratos Sprague-Dawley. Os pesquisadores observaram aumento de marcadores associados à regulação da resposta imunológica, como Foxp3 e interleucina-10, e redução de NF-κB e do fator de necrose tumoral nos grupos que receberam os extratos, em comparação ao grupo com o modelo de doença sem suplementação.
Os autores também documentaram alterações na composição da microbiota intestinal, com aumento de bactérias do gênero Bifidobacterium, e descreveram cicatrização do tecido do cólon nos grupos suplementados. O extrato alcoólico foi o que produziu o perfil mais próximo ao dos animais saudáveis utilizados como referência. (DOI: 10.18632/oncotarget.20689)
Da bancada de pesquisa para a tigela do pet: o que ainda não sabemos
A leitura honesta desse conjunto de estudos exige alguns cuidados. Primeiro, as amostras são pequenas — 18 cães, 15 camundongos — e adequadas para estudos exploratórios, mas insuficientes para conclusões definitivas sobre qualquer espécie. Segundo, as doses utilizadas nos estudos (em gramas por quilo de peso corporal, ou em miligramas por 10 kg) referem-se a extratos padronizados e produzidos especificamente para a pesquisa — não correspondem necessariamente à concentração de compostos bioativos em produtos comerciais disponíveis para tutores de pets, que variam muito entre fabricantes.
Terceiro, espécies diferentes metabolizam compostos de formas diferentes. Um mecanismo documentado em camundongos — como o aumento de marcadores de neurogênese no hipocampo — não significa automaticamente o mesmo efeito, na mesma magnitude, em cães, gatos ou outros animais de companhia. É por isso que pesquisadores avançaram passo a passo: de culturas celulares para roedores, e de roedores para os primeiros estudos com cães.
A literatura também é unânime em um ponto de segurança alimentar: cogumelos crus ou colhidos na natureza nunca devem ser oferecidos a animais, pela dificuldade de digestão e pelo risco de toxicidade de espécies não identificadas corretamente. Qualquer forma de suplementação com cogumelos funcionais para pets discutida na literatura veterinária parte de extratos processados e identificados, nunca de cogumelos in natura de origem desconhecida.
Considerações importantes
Evidência pré-clínica não é o mesmo que uso estabelecido. Os estudos com cães aqui descritos são recentes, com amostras pequenas e desenhos exploratórios. Eles indicam direções de pesquisa, não protocolos validados para uso amplo em animais de companhia.
Produtos comerciais variam muito entre si. A concentração de erinacinas, hericenonas e beta-glucanas depende da parte do cogumelo utilizada, do método de extração e do processo de produção — fatores que não são padronizados entre marcas voltadas ao público pet.
Cada espécie responde de um jeito. O que a pesquisa documenta em camundongos, ratos ou em um grupo específico de cães não pode ser generalizado automaticamente para outro animal, outra raça, outra idade ou outro porte.
Cogumelos in natura nunca devem ser oferecidos a animais. O risco de toxicidade por identificação incorreta da espécie é real e documentado na literatura veterinária.
A decisão envolve sempre um médico-veterinário. Qualquer interesse em incluir cogumelos funcionais na rotina de um pet — especialmente animais idosos, com condições preexistentes ou em uso de outros medicamentos — deve ser conversado com o profissional responsável pelo acompanhamento do animal.
Os extratos da Kodama são formulados para consumo humano. Nossos produtos seguem a classificação de alimento, isento de registro conforme a RDC nº 843/2024 da ANVISA, e não são formulados, dosados ou registrados para uso animal. Este artigo tem propósito informativo sobre a pesquisa científica em torno do Hericium erinaceus — não é uma recomendação de uso em pets.
Referências
- Cevik, C., et al. (2025). Multimodal assessment of Hericium erinaceus and Valeriana officinalis for canine anxiety: Integrating EEG, neurochemical analysis, and behavioral surveys. Journal of Veterinary Behavior, 79, 7–18. DOI: 10.1016/j.jveb.2025.04.010
- Cho, H.-W., et al. (2022). Gut microbiota profiling in aged dogs after feeding pet food contained Hericium erinaceus. Journal of Animal Science and Technology, 64(5), 937–949. DOI: 10.5187/jast.2022.e66
- Chun, J.L., et al. (2022). Effects of Hericium erinaceus on health of aged dogs. Journal of Animal Science, 100(Supplement 3), 273–274. DOI: 10.1093/jas/skac247.496
- Ratto, D., et al. (2019). Hericium erinaceus improves recognition memory and induces hippocampal and cerebellar neurogenesis in frail mice during aging. Nutrients, 11(4), 715. DOI: 10.3390/nu11040715
- Diling, C., et al. (2017). Extracts from Hericium erinaceus relieve inflammatory bowel disease by regulating immunity and gut microbiota. Oncotarget, 8(49), 85838–85857. DOI: 10.18632/oncotarget.20689
- Friedman, M. (2015). Chemistry, nutrition, and health-promoting properties of Hericium erinaceus fruiting bodies and mycelia and their bioactive compounds. Journal of Agricultural and Food Chemistry, 63(32), 7108–7123.
A Hericium erinaceus que aparece nesses estudos com cães é a mesma espécie de cogumelo que a Kodama cultiva e processa por dupla extração hidroalcoólica assistida por ultrassom, com rastreabilidade lote a lote. Nossos extratos são formulados e produzidos para consumo humano, conforme a RDC nº 843/2024 da ANVISA — não substituem orientação médica veterinária nem produtos formulados especificamente para animais. Se o seu interesse é conhecer essa espécie de cogumelo aplicada ao bem-estar humano, conheça nossa linha de Juba de Leão →
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional sobre pesquisa científica. Não substitui orientação médica veterinária, diagnóstico ou tratamento. Procure sempre um médico-veterinário qualificado antes de qualquer mudança na alimentação ou rotina do seu animal.